O MESTIÇO BRASILEIRO COMO SÍMBOLO NACIONAL
SEGUNDO A TEORIA DO ROMANTISMO ALEMÃO
Toda literatura fechada em si mesma acaba por definhar no tédio, se não se deixa, renovadamente, vivificar por meio da contribuição estrangeira.
É importante compreender que os românticos indianistas no Brasil demonstravam entender objetivamente a grande contribuição trazida pelas noções nacionalistas vindas do exterior. Sobre isso, convém destacar que a teoria romântico-alemã encontrou aqui solo fértil por permitir uma diferenciação nacional tendo em vista a diferenciação estética, lograda, no caso do Brasil, sob um clima de forte aversão a toda determinação da metrópole portuguesa.
Em respeito a tais considerações, mostra-se fundamental indicar na ex-colônia a pretensão de afirmar a noção germânica de Volksgeist, algo apto a conformar uma idéia de Gênio ou inteligência nacional popular, forjada em honra, respeito e orgulho a todo traço autóctone. Diante dessa noção, sabe-se que o modelo de civilização europeu relativizou-se, estabelecendo um espaço eclético para a vida de outras culturas. Para o Brasil, evidenciou-se então uma possível oportunidade de se instaurar um “estilo”, mais próximo de sua civilização “crivada de culturas” e de seus habitantes “crivados de raças”.
Com efeito, pode-se dizer que pelo menos um crítico brasileiro do séc. XIX logrou discutir a cultura e a história da literatura brasileira com um ponto de vista declaradamente germânico: Sílvio Romero. Nele se percebe uma eloqüente compreensão da teoria relacionada ao Volksgeist conforme o pensamento de um dos mais relevantes teóricos do pensamento nacionalista europeu a partir do séc. XVIII, o alemão J. G. Herder (1744-1803).
Pertencente à Escola de Recife, em que se nota também Tobias Barreto como outro germanista, Romero produziu certos estudos que deixam explícita sua filiação a uma perspectiva nacionalista mística, populista, não-tradicional e oposta a intervenções institucionais em harmonia com o que pregava o alemão. Deve-se atentar sobretudo para o longo estudo História da literatura brasileira, de primeira edição datada em 1888 (inicialmente dois vols. para os cinco da edição de 1943, a mais recente), no qual o autor expõe de maneira reiterada sua preocupação com o desenvolvimento de um espírito nacional brasileiro. Conforme uma objetividade bem peculiar, Sílvio reclama um “espírito” de fato, no modelo germânico, menos outorgado – ou seja, menos burocratizado ou menos submisso ao poder imperial tradicionalista e aos projetos nacionais de literatos distantes da realidade do país – e mais espontâneo, mais público, menos engessado e mais efervescente.
De acordo com uma perspectiva extremamente engajada e republicana, Sílvio procura exaltar uma literatura que desempenhasse de fato um papel ativo na formação da consciência do país – mesmo que à custa de choques violentos e radicais. Para tanto, seria fundamental todavia o repúdio a qualquer tom encomiástico, de reverência conveniente ao poder estabelecido, conforme um certo patriotismo romântico.
Na introdução à obra A Literatura Brasileira e a Crítica Moderna (de 1880), Sílvio Romero aponta a priori o risco em se elaborar um texto de crítica no Brasil, pois “os nossos ledores grandes e pequenos, como bons burgueses, estão tranqüilíssimos com tudo quanto os cerca, e repelem soberbamente aquilo que os possa perturbar”[1]. A crítica seria vista assim como um nocivo recurso desestabilizador, algo que poderia fazer desmoronar a sólida visão consensual de literatura – e, por contigüidade, de nação – construída a duras penas pelos primeiros românticos. Sílvio ataca da mesma maneira o zeloso argumento de que “este país é novo, e sua literatura nascente; a crítica longe de acoroçoar desanima; ela é, pois, muito prejudicial”[2]. Em contraposição, ele indica o que seria para ele o “exemplo da Alemanha”:
Em que pode prejudicar ao desenvolvimento espiritual de um povo o estudo que mostre-lhe quais as suas conquistas históricas e suas aptidões imanentes? Longe de ser-lhe nocivo, é-lhe de todo animador; e, para mostrá-lo, basta lembrar o exemplo da Alemanha, cuja literatura tomou o soberbo ascendente, que a distingue, fundada na crítica, depois do grande movimento provocado por Lessing.[3]
Buscando historicizar a cultura brasileira em vista de uma expressão popular de fato autêntica, o que estaria bem de acordo com a receita herderiana pregada pelo romantismo alemão, Romero observa que:
à força de desprezarmos a corrente de nossa própria história e pormo-nos fora do curso das idéias livres, eis-nos chegados ao ponto de não passarmos de ínfimos glosadores das vulgaridades lusas e francesas; eis-nos dando o espetáculo de um povo que não pensa e produz por si[4].
Mantendo o tom e colocando então o indianismo como alvo de suas discordâncias, o crítico brasileiro afirma:
Nas grandes nações da Europa, como a Inglaterra e a Alemanha, o romantismo foi, em parte, uma volta aos sentimentos populares, uma ressurreição do passado no que ele tinha de mais aproveitável. Não assim entre nós. O nosso velho lirismo [...] foi esquecido. A velha modinha foi abandonada. [...] Desprezada a vida histórica, atiramo-nos aos desvarios do ultra-romantismo posterior à revolução de Julho, com todos os seus enganos e meticulosas fascinações. A crítica não nos ensinou a produzir; os elementos da nossa história e do nosso pensamento não foram elucidados. O papel dos três concorrentes da nossa população não foi indicado, e um falso sentimento de nacionalidade jogou-nos para o caboclo, e glorificamo-lo.[5]
Vê-se que nesse trecho o crítico lamenta o abandono da história brasileira ou a sua reafirmação dentro de um ambiente colonial (e colonizado), de permanente dependência, seja da metrópole, seja dos outros modelos europeus. Sílvio, com suas preocupações ligadas à necessidade da expressão popular, percebe que por trás do abandono da modinha e do velho lirismo haveria um pensamento elitista classicizante, apto a ocultar qualquer caráter menos enobrecedor da ex-colônia que pudesse afetar o fascínio do estrangeiro. Para o agrado deste, “os elementos da nossa história e do nosso pensamento não foram elucidados”, dada a conveniência em se glorificar o “caboclo”, um fictício índio Bom Selvagem, conforme o indianismo vincado em teorias naturalistas européias.
Para dar vida ao Volksgeist brasileiro, o autor receita aos intelectuais um contato direto e autêntico com a população, para a qual buscariam dizer a “verdade” histórica, a realidade concreta, e não as “inovações insensatas”. A meta seria o estabelecimento de uma nação culta, livre e original, transformando em povo o “rebanho mole e automático” que compunha as classes menos favorecidas: “a situação funcional da população brasileira pode ser expressa em uma só palavra: o Brasil não tem povo!”[6]
Frisando os conceitos de Zeitgeist – o espírito da época – e de Allgeist – o espírito comum, “que determina a corrente geral das opiniões de um povo”[7] – Sílvio Romero reafirma a falta de um estudo particular e apurado de todas as ramificações da atividade popular, nos sentidos artístico, literário e religioso. Dessa forma, Sílvio faz então uma longa relação das contribuições germânicas para as letras e as ciências, algo que poderia ser bem aproveitado para nações ainda alienadas desses frutos de outras civilizações.
As relações com a teoria nacionalista de Herder e sua indicação para resolver a situação nacional brasileira de fato se espalham pelos livros do crítico em questão. Este a propósito chega a citar textualmente o pensador alemão em certos momentos. Há a menção de Herder como um dos “grandes guias do pensamento germânico” e um dos responsáveis pela “agitação literária e científica que se resolve no romantismo alemão”, uma tendência cuja influência maior, segundo Romero, apareceria no Caramuru e no Uraguai[8]. Em outro livro, o Estudos de Literatura Contemporânea de 1885, Herder é citado, junto de Lessing, como um dos pais da crítica moderna, esta que teria assim sua origem na Alemanha[9]. Herder, agora acompanhado de Thierry e Renan, é também relacionado dentre os mestres da Etnologia[10], um dos que teriam corroborado a introdução do princípio etnográfico em Sílvio Romero[11]. Nos Novos Estudos de Literatura Contemporânea, Herder é novamente incluído em um grupo notável, sendo agora parte do pequeno grupo dos “grandes transformadores das ciências do homem”[12].
Com o suporte nessa teoria, Sílvio buscaria fugir do “nacionalismo do pitoresco” (que corresponde à ânsia européia pelo exótico) para elaborar um tema capaz de fundar a diferença realmente concreta do Brasil diante das outras civilizações. Seria assim um tema a ser exaltado radicalmente pela produção literária brasileira, que parecia ainda se perder no respeito à deslocada óptica européia determinada pelos franceses.
Para fugir dessa dependência, Sílvio demonstra então o engano em celebrar o índio como símbolo nacional, em detrimento daquele que seria, de fato, a afirmação do gênio, do Volksgeist brasileiro: o mestiço. No livro III da História da Literatura Brasileira, o autor argumenta que, com pelo menos três séculos de história e de intensa mistura de raças, não havia como se determinar a existência do índio, do negro ou do branco português.
Segundo suas palavras, houve uma “desaparição progressiva” – ou, como ele corrige em seguida – , uma “transformação das duas raças inferiores e a sua integração em um produto novo pela mestiçagem”, incluindo-se aí ainda o português que “não ficou incólume à ação modificadora do meio, ele também se transformou”. Assim, “o espetáculo de nossa história é um espetáculo de transformação de forças étnicas e de aptidões de três culturas diversas, de três almas que se fundem”[13].
Com efeito, se o autor enfatiza reiteradamente que a literatura brasileira, como todas as literaturas do mundo, deve ser a expressão positiva do estado emocional e intelectual, das idéias e dos sentimentos de um povo – sempre na receita popularizante dos românticos alemães – , este “povo” por seu lado encontra uma caracterização:
Ora, nosso povo não é o índio, não é o negro, não é o português; é antes a soma de todas estas parcelas atiradas ao cadinho do Novo Mundo. São as gerações crioulas, que, deixadas de parte as nostalgias dos progenitores, esqueceram-se delas para amar este país e trabalhar na formação de uma pátria nova. [...] Uma literatura tem uma base, tem elementos e tem órgãos. A base da nossa é o sentimento do brasileiro, como nação à parte, como produto étnico determinado; os elementos são as tradições das três raças sem predomínio de uma sobre as outras; os órgãos são os nossos mais notáveis talentos, todos aqueles que sentiram como brasileiros. [14]
Nesse ponto de vista, o índio não seria de fato brasileiro, uma vez que teria vivido em uma terra sem qualquer correspondência com o “sentimento” do que é ser Brasil, ser pátria, ou melhor: ser Estado segundo o ponto de vista moderno. Faltaria assim à figura do silvícola uma representatividade mítica para que então pudesse simbolizar o elemento primitivo, algo original e, dessa forma, autenticamente nacional.
Corroborando pré-julgamentos ao tempo que os contestando, Sílvio Romero informa que o predomínio do indianismo se deve a um preconceito difícil de ser combatido:
Causas numerosas e especiais contribuíram para arraigá-lo. [...] Na literatura (o indianismo) aparece como um protesto contra os invasores. [...] Na esfera social o índio tem mais simpatias, deixou há mais tempo de ser escravizado e, por ser menos escuro do que o negro, é mais querido.[15]
Daí o autor evidencia a negligência sofrida pelo negro, uma raça “que oferece interessantíssimos problemas” e que, historicamente, representa um “papel mais eminente do que o botocudo, ente fraco, desequilibrado e prestes a extinguir-se”[16]. Segundo o severo darwinismo de Sílvio, o negro seria fundamental no processo de caracterização racial brasileira pelo caráter menos débil e por estar mais próximo do elemento mestiço, o único com efeito nacional: “o negro e seu parente mestiço tocam o nosso povo bem de perto. Não sejamos presunçosos, nem tenhamos medo de dizer a verdade”.
Como literato a simbolizar o “genuíno brasileiro”, Sílvio indica Gonçalves Dias, um filho de português com mameluca, “um mestiço físico e moral que será ainda por muitos séculos uma das mais autênticas manifestações da alma deste povo”[17]. Este autor romântico estaria assim, de acordo com Sílvio, inserido no grupo dos que realizam um nacionalismo mais subjetivo, mais “do fundo d’alma”, espontâneo, em vista do nacionalismo exterior, baseado na escolha de assuntos.
Percebe-se assim que Sílvio Romero defende uma concepção de nação conforme os moldes prescritos pelo alemão Herder. De fato o crítico leva em conta uma noção mítica em vista de uma expressão popular, não erudita, do que seria de fato único e original, incomensurável, digno de fazer com que a razão perca sua autonomia a fim de trabalhar por um projeto gerado pelo próprio Gênio do povo.
Este Gênio, ligado à idéia de genuíno, traria à tona a idéia da diferença, algo muito caro ao pensamento nacionalista alemão por romper com o absolutismo do modelo clássico. Traria à tona também a noção de ecletismo, uma idéia salientada por Herder e desenvolvida por A. Schlegel que foi amplamente explorada pelos românticos brasileiros com o fim de destacar o contraste existente entre a metrópole portuguesa e a ex-colônia, assim como para fundar um lugar digno e autônomo para a nova nação no concerto das nações modernas. Logo, o símbolo nacional não poderia mais ser o índio. No lugar deste, surge o mestiço, que sairia da sombra do preconceito racial para consagrar a diferença brasileira.
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[1] S. ROMERO. A Literatura Brasileira e a Crítica Moderna. In: CANDIDO, 1978. p.3.
[2] Ibid. p.3.
[3] Ibid. p.3.
[4] Ibid. p.4.
[5] Ibid. p.5.
[6] Ibid. p.15.
[7] Ibid. p.18.
[8] S. ROMERO. História da Literatura Brasileira. Livro III. In: CANDIDO, 1978. p.34.
[9] Id. Estudos de Literatura Contemporânea (1885). In: CANDIDO, 1978. p.87.
[10] Ibid. p.88.
[11] Id. Novos Estudos de Literatura Contemporânea (1898). In: CANDIDO, 1978. p.119.
[12] Ibid. p.130.
[13] ROMERO, S. História da Literatura Brasileira. Livro III. In: CANDIDO, 1978. p.28.
[14] ROMERO, S. História da Literatura Brasileira. Livro II. In: CANDIDO, 1978. p.54-55.
[15] Ibid. p.49.
[16] Ibid. p.49.
[17] Ibid. p.64.